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Oi, população da Avenida! Eu sei, eu sei, pulei uma semana. Sei também que vocês não vivem sem minhas maravilhosíssimas e interessantíssimas dicas de HQs, mas tenho uma ótima desculpa: estava me empanturrando na casa da vovó! Explicações à parte, aproveitei minhas férias remuneradas para ler e reler uma HQ lindíssima, que ganhei de aniversário de uma amigona (quase chorei quando vi os três volumes embrulhados em plástico bolha, sem brincadeira). Espero que curtam essa resenha!

Sabe aquela vontade de largar tudo e ir para algum país bem distante, tipo o Afeganistão, e trabalhar em uma organização mundial beneficente? Pois é isso que fez o fotógrafo francês Didier Lefèvre: seguindo uma missão da Médicos Sem Fronteiras, ele enfrenta a guerra do Afeganistão contra a União Soviética, em 1986, para fotografar. Durante a espartana viagem (do tipo acordar-as-quatro-da-manhã-num-chão-duro-com-gritos-de-muçulmanos-rezando), ele conseguiu preencher 130 rolos de filme com os sofrimentos, as alegrias, a gratidão, o medo, os ferimentos e a cultura de um povo oprimido pela guerra e pelo isolamento rural. Vinte anos depois, Lefèvre publicaria O fotógrafo – Uma História no Afeganistão, história em quadrinhos que mistura desenhos de Emmanuel Guibert e as impressionantes fotos em preto e branco de Lefèvre.

O fotógrafo decide juntar-se à caravana médica chefiada por Juliette, que não se acanha por ser líder e mulher (minha nova heroína: ela consegue tanto o respeito dos homens quanto a admiração das mulheres). O grupo segue por desfiladeiros perigosos, enfrenta a corrupção das autoridades locais, o frio e o cansaço, escondendo-se dos aviões soviéticos e pulando minas terrestres para curar aldeões necessitados. A aventura é muito interessante, mas nada idealizada: as fotos dos feridos são quase explícitas e os perigos da viagem são revelados sem heroísmo – como quando Didier se vê sozinho, perdido no cume de uma montanha nevada, cara a cara com a morte.

A HQ é um tapa na cara de quem crê no estereótipo afegão, aquele do cara-barbudo-rude e da mulher-de-burca-submissa, porque, aos poucos, o fotógrafo vai desvendando (não com pouco sofrimento) os costumes locais. Coisas como a burca ou as crianças-soldado são discutidas e explicadas de um jeito que deixa o leitor envergonhado com seus próprios preconceitos. Parece exagero, mas realmente é como se estivéssemos frente a frente com o mundo afegão.

Os desenhos são bem simples – parecem fotos com efeitos de computador –, mas o texto e as fotografias em preto e branco complementam os quadrinhos, de modo que a falta de detalhes nos desenhos é compensada pela riqueza das lembranças de Lefèvre. Os recursos gráficos também são muito interessantes: a mistura de fotos com os desenhos, a representação da noite, dos caminhos e da neve, a escrita persa em alguns balões de fala, a melodia da fala dos afegãos.

A HQ, editada pela Conrad, é dividida em três volumes, cada um com umas 80 páginas que podem ser lidas de um só trago – porque a) é difícil parar no meio da história e b) as fotos dão fluidez ao relato. Vale lembrar que não é uma história leve nem lírica, como Persópolis ou Adeus Tristeza. O leitor deve estar preparado para um grande choque cultural e bastante sofrimento, com algumas pitadas de bom humor. Estou cheia de admiração por esse fotógrafo que, depois da viagem, contraiu furunculose e perdeu 14 dentes, mas, mesmo assim, voltou ao Afeganistão mais sete vezes e ainda viajou para outros lugares em circunstâncias similares. O fotógrafo é um relato gráfico indispensável para os amantes de uma boa história – e, talvez principalmente, para futuros contadores de histórias: os jornalistas e fotojornalistas.

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