Criando vida

Quando se fala em “criação”, o que vem na sua cabeça? Um monte de publicitários fazendo propagandas numa sala modernosa? Um artista finalizando sua obra-prima? Um cara gigante e barbudo dizendo “faça-se a luz”? Bom, a palavra “criar” vem do latim, “creare”, que significa, também, “dar à luz”. Este é um bom jeito de pensar uma HQ: algo que é planejado, gerado e esperado com muita vontade, como um filho. Para o professor de desenho Leandro Casco, é simples: “Gosto de dar vida às minhas histórias”.

Portanto, para começar uma boa história em quadrinhos, nada melhor do que uma boa dose de inspiração e paixão: “Filmes, literatura, games, cultura pop em geral, um pouco das coisas que vivi também, grandes personalidades e fatos históricos, tudo serve de inspiração”, conta Leandro. Muita pesquisa? Para o professor, não: “Acredito que inspiração é tudo o que a gente vê e vive, desde que sua mente seja um terreno fértil”.

Essa é uma página da minha HQ. Essa personagem é inspirada em mim!

Essa é uma página da minha HQ. A personagem é inspirada em mim!

Depois da paixão, vem o amor: a construção de uma relação sólida. Essa construção dá muito trabalho. É a mesma coisa com uma HQ, diz Leandro: “Depois da inspiração, vem o design de personagens, o plot e o roteiro”. Um bom roteiro, segundo ele, deve agarrar a atenção do leitor e fazê-lo sentir-se parte – e não um mero observador – da história. “Se você não pensa bem no plot, a história fica clichê; se a história é clichê, ela é fraca e não vai atrair o leitor”, explica Ana Helena, uma das mais promissoras alunas de Leandro. Ela conclui: “O importante é você, como autor, acreditar na sua história. Se você não acreditar, quem vai?”. Para Leandro, ser original nos assuntos é quase impossível. Portanto, um quadrinista deve sempre buscar uma abordagem nova dos mesmos assuntos. Existem, por exemplo, centenas de graphic novels autobiográficas, mas poucas entrelaçam a vida da personagem ao cenário político de seu país, como fez Marjane Satrapi em Persépolis.

As personagens têm um papel fundamental – afinal, é através das ações e reações delas que a trama será passada aos leitores. Criar personagens não é fácil. A inspiração talvez seja a parte mais divertida: observar tipos engraçados nas ruas, desenhar amigos e familiares, copiar rostos de famosos. Porém, uma vez que o esboço esteja pronto, o quadrinista deve dar vida à personagem. “Precisamos colocar na cabeça do leitor que aquele desenho é uma pessoa real. Aí, é legal pensar em muitos detalhes para a personagem. De onde ela vem, onde foi criada, do que gosta, do que não gosta, o que ela quer da vida… é isso que constrói uma pessoa de verdade”, afirma Ana. Leandro conta que não segue regras para criar personagens: “Uso apenas estereótipos interessantes, que contem bem a história e que possam despertar identificação”. Então, vem a parte mais braçal, que Leandro chama de “Fazer mil vezes”: a folha de referência. Nela, o quadrinista desenha sua personagem de muitas maneiras diferentes, anotando medidas e características. A folha de referência serve para fazer a personagem parecer ela mesma em todos os quadrinhos, e para o desenhista se familiarizar com as suas formas, expressões e vestimentas.

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Um exemplo de folhe de referência: aqui, temos todas as medidas do rosto e do corpo da minha personagem, Ana.

Com a história e as personagens definidas, é hora de por no papel e começar efetivamente (e finalmente!) a dar corpo à HQ. O material de desenho é importantíssimo para criar histórias em quadrinhos convincentes, como explica Ana: “Você pode usar papel sulfite e caneta Bic, mas para ficar bom mesmo, eu recomendaria fazer tudo em A3 e nanquim”. O papel A3 profissional tem uma consistência ótima para receber as camadas de nanquim – uma tinta especial que deixa o traço com um jeitão de comics – e, quando a página for reduzida para a impressão, o traço parece mais firme. O primeiro passo nesse estágio é o planejamento de páginas: pensar como será a organização dos quadrinhos e dos balões de fala, e o número de páginas que a HQ completa terá. Aqui, vale fazer um esboço em um papel menor para guiar na hora de desenha a página de verdade. “A ideia é os quadrinhos serem organizados de um jeito que o leitor entenda”, comenta Leandro.

Uma vez planejada, a história é desenhada a lápis. “Geralmente, usamos um lápis mais duro, como o 2B, para desenhar os traços, e um mais mole, o 6B, para a sombra. Os detalhes, a gente faz com lápis azul”, esclarece Ana, e Leandro acrescenta: “Borracha é proibido! O processo de parar o desenho para pegar a borracha faz você se desconcentrar. Por isso, é bom só apagar os erros no final do desenho. Não tem problema se ficar rabiscado, porque depois você vai contornar com nanquim e o lápis vai embora”. A página do desenho fica mesmo bem poluída, principalmente se houver muitos detalhes, como sombras e linhas de perspectiva. Por isso, alguns artistas gostam de arte-finalizar – isto é, contornar com nanquim – em uma nova folha e, para isso, usam uma mesa de luz, que permite copiar o desenho original sem problemas.

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Página a lápis de Maurício de Souza.

A arte-final em nanquim, um dos últimos estágios da HQ, é um processo que pode durar várias horas e exige um controle e uma organização muito grandes. Não dá para errar toda hora, como no desenho a lápis; a mão não pode tremer; o material – nanquim, pena, caneta de precisão e pincéis profissionais – deve estar sempre impecável (e é caro que dói!). Por isso, muitos quadrinistas preferem contratar um artista especialista em inking¹, enquanto eles próprios preocupam-se apenas em desenhar. Hoje em dia, porém, é comum escanear a página do desenho e arte-finaliza-la no Photoshop, usando uma caneta digital. “A vantagem do digital é a praticidade: há o ‘Ctrl+ Alt+Z’ . Mas o processo tradicional é mais divertido e proporciona maior concentração”, argumenta Leandro, e conta que, enquanto faz o inking, costuma ouvir bandas como Daft Punk: “Arte-final é diversão garantida”.

Uma página da minha HQ arte-finalizada

Uma página da minha HQ arte-finalizada

Por fim, vem a colocação do texto dos balões, que deve estar sempre em harmonia com as imagens, e a coloração, que pode ser feita com aquarela, guache, tinta óleo, ou até digitalmente, no Photoshop. Vale lembrar que a coloração não é exatamente necessária: HQs em preto e branco, como Retalhos, Persépolis e Maus, são muito populares. O P&B também pode criar efeitos de perspectiva e sombra que as cores não permitiriam, como Frank Miller faz em Sin City. Mas, claro, tudo depende da impressão que o quadrinista quer passar aos seus leitores.

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Nada transmite mais cor do que a graphic novel de Craig Thompson, “Habibi”, que é em preto e branco.

Para finalizar de vez (ufa!), o quadrinista deve mandar seu trabalho para a gráfica e imprimi-lo. Geralmente, o processo de convencer uma editora a publicar uma HQ começa bem antes da arte-final, no estágio do roteiro, mas existem muitos autores que preferem tentar a sorte com o dinheiro do próprio bolso, ou então, publicando em revistas e fanzines alternativos, ou mesmo na internet.

Trabalho demais para pouca garantia de sucesso? Não para Leandro. “Sempre gostei de desenhar, de ler quadrinhos e de assistir desenhos animados, e desde pequeno já havia decidido que era isso que eu queria fazer. Minha família apoiou, desde sempre. Vai ver eles achavam que eu ia mudar de ideia (risos). Toda profissão tem seu lado bom e ruim, mas eu me sinto feliz e realizado por fazer o que gosto e poder publicar, agora, minha primeira obra autoral, a Nikkei²”. E defende: “Todas as fases [da confecção de uma HQ] são muito trabalhosas, mas acredito que, quando você curte, o trabalho flui com facilidade.”

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Leandro Casco é professor na Escola de Artes e Profissões São Paulo, ou só “Arte SP”, e lança, esse ano, sua HQ, “Nikkei”.

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Ana Helena é aluna de Leandro Casco e tem um mega talento que às vezes usa para fazer rir.

1. O termo inking significa, ao pé da letra, “tintar”, ou seja: arte-finalizar.
2. Eu ajudei um pouco na arte-final dessa HQ! Foi bem cansativo, mas valeu a pena.

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