It – o que acontece quando você tenta parecer cool

Quando foi anunciado que a modelo-DJ-apresentadora-de-televisão-editora-namorada-de-músico AlexaChung faria um livro em parceria com a editora Penguin todos os seus fãs e amantes da moda esperavam algo grandioso. Quem não ia querer ouvir o que a vencedora de três British StyleAwards consecutivos tem a dizer?

Apesar de fazer um pouco de tudo, Alexa ficou famosa por ser it girl. O termo deveria significar que ela tem algo a mais, um je ne sais quoi que atrai a atenção. Embora muitos apostem no conjunto da obra, o jeito de se vestir, cuidadosamente desleixado, mas ainda assim arrumadinho, foi o que conquistou olhares de tubarões como a editora da Vogue americana Anna Wintour e Karl Lagerfeld.

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Sem um propósito definido, Alexa montou o livro, cujo título é de pretensão assustadora: It.  Pouco se sabia sobre o conteúdo até o lançamento, no começo de setembro. Não eram poemas, nem um romance, nem contos. É um apanhado de tudo que ela gosta, como um diário pré-adolescente.

A capa dura de tecido rosa-bebê com decorações minimalistas era promissora e muito atraente, assim como o começo do interior; cuidadosamente decorado para não ser poluído.

Nas primeiras páginashá fotos, tanto dela como modelo quanto como fotógrafa, e, na primeira página escrita, a frase de abertura do livro é: “Horses were my first love”. E então a cabeça de vento com o penteado mais cobiçado do mundo discorre sobre como o primeiro sonho de consumo dela foi um pônei e como conseguiu realizar essa enorme ambição. Emocionante.

O insight seguinte é um pouco menos fútil, mas não profundo o suficiente para salvar o livro. Ela reflete sobre as Spice Girls, comentando a música, a influência na moda e como as cantoras foram seu primeiro contato com o “girl power”. Na talvez única fala inteligente do livro, Alexa diz que é irônico que os primeiros ícones feministas dela tenham sido produtos criados por homens. Em seguida, um desenho sem cor (e sem graça) feito por ela.

It segue com esquetes desconexas de aspectos pouco interessantes da vida dela, como amigos e familiares. A parte na qual ela explica como e quais estrelas de cinema e da música influenciaram seu estilo, embora previsível, é uma boa base para explicar seu estilo único. Ela cita desde Wednesday Adams até Anna Karina, musa de Jean-Luc Godard, dizendo em quatro linhas porque cada uma das grandes personalidades, Kate Moss e Margot Tenenbaum, influenciou seu estilo. Como muitas vezes ao longo do livro, as “influências” dela parecem ter passado por uma peneira de “o-que-soaria-cool-de-se-dizer”.

Alexa dá, enfim, as dicas-mais-úteis-de-todos-os-tempos de como se vestir de manhã, revelando segredos de beleza, por exemplo, verificar se a roupa está limpa e se olhar no espelho.

Alternando entre imagens sem sentido que a “inspiram”, mas nunca dizendo o porquê disso, e dicas de como sobreviver a festivais de música, acompanhadas de uma toneladas de fotos suas e de seus amigos se divertindo num show de uma banda que provavelmente nunca ouvimos falar, ela dá uma explicação muito necessária do que égroupie e de como ela é uma assumidamente.

Por algumas páginas, Alexa fala um pouco sobre o que todos queriam ler: seu término de namoro com Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys. Mas, novamente, ela é breve e apenas dá uma amostrinha de seu coração partido, pulando logo para como é essencial que se tenha várias jaquetas de couro, mesmo que não se note diferença entre elas e itens indispensáveis num guarda-roupa. Novamente, verdadeiras revelações como shorts jeans, uma bolsa de marca e, quem diria, camisetas brancas.

Em mais um breve lapso de sabedoria, ela reflete sobre as redes sociais, dizendo que é irônico levarem esse nome, pois não tem nada a ver com se conectar com os outros, mas, sim, com autopromoção. E na página seguinte, uma divagação sobre como foi legal receber uma ligação em vez de um “like”. E aí um desenho de uma cebola.

E então mais páginas sobre como tirar a selfie perfeita e como a fila A de um desfile é sinônimo de status e não faz sentido ficar feliz com uma B ou C, pelo simples fato de não ser a A.

O livro ia acabando e a essa altura eu esperava que a última página fosse a) um pedido de desculpas ou b) uma foto do Sérgio Mallandro, que explicaria muita coisa, mas fui surpreendida com um comentário sobre criaturas jurássicas. Alexa Chung gosta de dinossauros. Que original.

E fim.

A impressão que It deixa é de um monte de peças de lego, mas de diferentes tamanhos, que tentam desesperadamente serem conectadas por um recém-nascido ou um mural com colagens de inspiraçãobonitinhas e cool. Se fosse um sorvete, seria sabor oportunidade perdida, já que é esse o gosto que fica na boca durante toda a leitura.

Alexa Chung é, e provou que continua a ser, apenas um cabelinho descolado misturado com roupas legais e um histórico de ex namorados que mais parece uma playlist. Como disse a estilista inglesa LuellaBartley em seu livro Luella’s Guide to English Style, “perhaps modern Miss England needs to add some more depth to her vintage and irony-heavy character”.

Não encontrei o “it” que estava procurando e me convenci (ou fui convencida) de que a pobre Alexa também não faz ideia do que isso é, já que parecer descolada é muito mais importante do que ser alguma coisa. Qualquer coisa.

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